Infantojuvenil

“TUA MÃO NA MINHA”, DE ELOÍ BOCHECO

livro individual 3

Tua mão na minha” (Habilis Press, 2012), de Eloí Bocheco, narra a história de Dúnia, uma menina que quase todos os dias vai à fonte, enche o balde com água fresca e carrega até sua casa. Como mora longe, ela faz várias pausas para descansar. Durante as pausas, debruça-se sobre o balde esperando a água se aquietar dentro do recipiente. Neste momento, Dúnia solta sua imaginação, faz uma canoa com a folha da figueira e remos de vassourinha do campo: ela entra em um mundo mágico, onde pode brincar nas águas do rio de balde. O peixe dourado é o primeiro que vem brincar. Os peixes miúdos entram no cabelo da menina – ao mesmo tempo que a menina se livra de uns, outros já se enroscam nos fios de seus cabelos! A lagartixa se espanta com os peixes de todas as cores enfeitando o cabelo da menina. O grilo sempre pula na canoa e Dúnia a vira para ver o grilo nadar. Ele mergulha demorado para, quando voltar, trazer pedrinhas para a menina brincar.

Nesses passeios imaginários, Dúnia foi até a ponte. Deixou a canoa ancorada em um lugar seguro para passear pela ponte de madeira. Em meio à correnteza da água, sempre descia alguma coisa, “um pedaço de tronco de árvore, restos de algas, coisas que o riacho agarra sem querer”. (BOCHECO, 2012,p.10). Depois da ponte fica a mata, lá a menina não entra. Na mata funda, moram muitos seres encantados no oco das árvores, entre eles o Boitatá, a Moça-da-lua e o Pé-de-pedra. A cobra d`água dizem que é inofensiva, mas Dúnia tem desconfiança, pois o pai foi picado três vezes por uma cobra. A rã esmeralda dá cada susto, pula de repente na canoa que, por pouco, não vira. Os pássaros querem andar em bando na canoa, mas Dúnia leva um de cada vez. O canário- do-reino não serve para remar. Quando canta, os remos esquece e deixa a canoa afundar.

No finalzinho da tarde, Dúnia volta dos passeios no reino das águas, pega o balde e vai para casa. A mãe de Dúnia reclama da água suja. Dúnia explica que foi por causa dos passeios na canoa, e a mãe ri da desculpa. Muitas vezes, mãe de Dúnia não se importa com a demora da filha para trazer a água, porém, às vezes, por não ter começado bem o dia, aparece irritada na estrada. Pega rapidamente o balde do chão, atira longe a canoa e os remos: assustados os peixinhos fogem. Dúnia vai para casa sem dizer uma palavra. Em dias de chuva, Dúnia não vai ao poço. Em outros dias, pode fazer frio ou cair geada que ela vai buscar água. Dúnia reclama ou escapa de outros trabalhos do dia a dia, mas de buscar água Dúnia não reclama.

Certo dia, Dúnia não apareceu no poço, o reino das águas e toda estrada sentiu falta da menina. Vieram dias bonitos e nada de Dúnia aparecer. Até as violetas abriram as pétalas brancas e azuis, mas pouco a pouco murcharam e caíram.

Em uma tarde de sol, Dúnia voltou ao poço, sem o balde na mão, seus olhos apresentavam muita tristeza e nada chamava atenção da menina. Sentou na pedra e depois deitou na grama. Dúnia olhava fixamente para o céu a fim de achar qualquer sinal de sua mãe, que foi morar nas alturas. A menina pensa alto: ela estaria brincando com as aves do céu?

A avó de Dúnia diz que o trabalho da mãe agora era cuidar das aves celestes. Dúnia pensa que, se virasse uma garça, voaria até a porta dos céus e pediria para Deus deixar a mãe voltar para casa. Como a avó diz também que agora ela é eterna, a menina questiona se pode se tornar eterna também, mas ninguém vira eterno quando quer, apenas quando chega a hora.

Dúnia levanta da grama, vai para a beira da fonte, se inclina sobre a água para olhar o céu refletir ao fundo. A mãe aparece com as aves divinas sobre a cabeça. Dúnia acena, manda beijos e abraços e grita que está com saudades. A mãe, no entanto, não a ouve por causa dos cantos das aves. Pouco a pouco, a imagem da mãe vai diminuindo até virar um pontinho no fundo azul da fonte – lágrimas caem no espelho da água, no azul do céu.

Durante esse tempo, a avó se assusta com a demora da neta, vai até o poço e a chama, pega-a pela mão: a tia da menina havia chegado e a aguardava, enquanto as duas seguiam para casa. A mão da avó era semelhante à mão da mãe. “Três linhas, ponho tua mão na minha”. (BOCHECO, 2012, p. 27). O jogo terminava assim, quando Dúnia brincava com a mãe. Na avó, a pequena encontrara semelhança com a mãe: no colo, na voz… Era como se tivesse duas mães. Uma que segurava sua mão na terra e outra que fora morar nas alturas.
Apertando com força a mão da avó, se inicia a brincadeira, aprendida com a mãe:

– Três pontos
– Caminho e conto
– Três riscos
– Pulo e me arrisco
– Três pingos
– Espalho e sigo
– Três passos
– Chego e passo
– Três linhas
– Ponho a tua mão na minha…
(BOCHECO, 2012, p. 27)

A obra de Eloí Bocheco (2012) encanta a todos, independentemente de faixa etária, porque é uma história que flerta intensamente com a imaginação, elemento marcante da infância– espaço onde tudo é possível – e na vida de um modo geral.

Segundo Costa (2007, p. 80), o lirismo “é a qualidade de textos em que imagens, palavras, situações e personagens se apresentam sob forma poética. O efeito lírico é percebido em textos que ultrapassam o conteúdo puramente narrativo para atingir um alto grau de beleza e emoção estética. Fica sempre no ouvinte ou leitor aquela sensação de encantamento”. É esse o efeito que “Tua mão na minha” causa no leitor.

Na obra, a todo momento, a autora faz seu texto chegar a um alto grau de qualidade literária, abandonando a linguagem utilitária e voltando-se, mesmo ao tratar de temas reais – como a morte da mãe de Dúnia – a uma linguagem poética. Costa (2007) explica que a criança, ao ter contato com a literatura infantil, se apropria de estímulos para desenvolver sua linguagem e alimentar seus pensamentos, imaginação e habilidades, além de formar referências simbólicas e afetivas que irão permanecer na memória e influenciar comportamentos futuros. “Principalmente porque a literatura cria uma outra realidade, que representa o que acreditamos ser o real, mas o faz de maneira a ressaltar no texto o caráter de fantasia, de imaginação […]”. (Costa, 2007, p.27).

Tua mão na minha” é obra afinada com a linguagem poética em que a autora estabelece com o leitor, pelas vias do imaginário, um vínculo intenso. Sendo assim, cabe mencionar, mais uma vez, Costa (2007), que explica que a literatura tende a colocar em sintonia o autor, a obra e o leitor. “O autor, ao construir o texto de imaginação em linguagem criativa, propõe ao leitor um desafio e um contrato. O desafio é viver a aventura de ler e conhecer. O contrato estabelece que o leitor concorda em considerar como verossímil o que lê, mesmo sabendo que se trata de um texto ficcional […]”. (COSTA, 2007, p.65).
Por meio das características da obra de Bocheco (2012), desafio e contrato são aceitos pelo leitor. Ainda a partir de Costa (2008), uma das razões mais significativas que envolvem o processo de leitura da literatura é o fato de que o leitor pode experimentar emoções e angústias semelhantes às personagens, sem precisar se expor, em tempo real, às aventuras, desventuras e perigos a que estão submetidos os protagonistas da ficção: esse esquema funciona exemplarmente em “Tua mão na minha”.

Por fim, cabe apresentar o pensamento de Azevedo (2005), que explica que, por meio da linguagem poética, assuntos subjetivos, assuntos que não são passíveis de lições, sistema de controle e soluções sinônimas, mas sim opiniões pessoais, emoções, discussões, podem vir à tona. “Tua mão na minha”, dado o uso exemplar da linguagem poética, faz brotar entre adultos e crianças a abordagem de temas tão difíceis de se tratar, como a perda, mas é verdade que a autora também nos conforta ao mostrar que é possível tirar do imaginário o ponto de apoio para continuar caminhando, porque “a vida e o jogo Tua mão na minha continuam, a pesar de tudo”. (BOCHECO, 2012, contracapa).

 

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Ricardo. Aspectos instigantes da literatura infantil e juvenil. In: OLIVEIRA, Ieda (Org.). O que é qualidade em Literatura Infantil e Juvenil? Com a palavra o escritor. São Paulo: DCL, 2005.

BOCHECO, Eloí. Tua mão na minha. Erechim: Habilis, 2012.

COSTA, Marta Morais da. Metodologia do Ensino da Literatura Infantil. Curitiba; IBPEX, 2007.

 

Magda dos Santos Costa Argenta (convidada)
Fabiano Tadeu Grazioli

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