Infantojuvenil

“O MENINO DETRÁS DAS NUVENS”, DE CARLOS AUGUSTO NAZARETH: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

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“O menino detrás das nuvens” é um texto dramático infantojuvenil escrito por Carlos Augusto Nazareth, em 1997, e recentemente reeditado pela Habilis Press Editora. Recebeu o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) quando de sua primeira edição, em 1997, e foi indicado ao Prêmio Mambembe de melhor texto, no mesmo ano. Na edição atual, o texto conta com ilustrações de Dane D’Angeli e projeto gráfico de Rafael Fernando Fontana.

O texto já teve montagens em diversos estados brasileiros, além de ter sido montado diversas vezes no Rio de Janeiro, estado de origem do autor. Algumas dessas montagens foram dirigidas, profissionalmente, pelo próprio Nazareth. Não é raro que se encontrem montagens amadoras ou profissionais do espetáculo, muitas das profissionais circulando por meio de projetos que levam espetáculos de um lado a outro do país. Tampouco é raro encontrar filmagens das montagens no YouTube, experiência bastante distinta de assistir a um espetáculo presencialmente, mas que não pode ser desprezada, quando se trata da única opção de o espectador entrar em contato com encenações teatrais.

Em 2014, Nazareth completou 30 anos de atividades teatrais, atuando como dramaturgo, diretor e crítico de teatro. Além de “O menino detrás das nuvens”, publicou outros quinze livros, a maioria textos teatrais dedicados a crianças e adolescentes, como o conhecido “O pássaro do limo verde” (Franco, 2003). Nazareth é criador, juntamente com outros profissionais, do Centro de Pesquisa e Estudo do Teatro Infantil (CEPETIN), importante centro de estudo e divulgação do teatro realizado para crianças no país, com sede no Rio de Janeiro. Também é criador do Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil, já em sua 9ª edição. O dramaturgo é especialista em Literatura Infantil pela Universidade Federal Fluminense. Dentre suas publicações teóricas destaca-se “Trama: um olhar sobre o teatro infantil ontem e hoje” (Lamparina, 2012).

“O menino detrás das nuvens” apresenta a história de Zezinho, um menino que tem um enorme desejo em seu peito, uma grande vontade de saber o que existe além dos morros, além daquilo que seus olhos alcançam. E um “bolo” no peito que ele não sabe muito bem identificar. Só sabe que é seu destino conhecer esse sentimento e resolver esse “bolo”. Menino de um universo restrito, seu contato com o resto do mundo é seu padrinho Malaquias, que promete levá-lo para conhecer “o outro lado”. Seu desejo de ir é imenso. Mas seu padrinho morre. E seu desejo, ao invés de morrer com seu padrinho, renasce forte. Tão forte que o faz “voar” até o outro lado do morro. E aí descobre a magia e a arte. Primeiro uma cigana, depois o circo. E aí se descobre artista. Descobre que o seu desejo de ver o outro lado é a sua possibilidade de ver o mundo de um jeito diferente da maioria das pessoas, e que seu destino é mostrar ao mundo esse jeito especial de ver a vida; com seu olhar de artista, seu eterno olhar de menino. É uma saga do herói, numa viagem de aprender. Herói comum de todos os dias, de todos os meninos que buscam cumprir seu destino. (Palavras do próprio Nazareth).

No artigo “A representação da família na dramaturgia infantojuvenil: o caso da obra O menino detrás das nuvens, de Carlos Augusto Nazareth”, eu e o Professor Doutor Miguel Rettenmaier realizamos uma análise do texto de Nazareth vinculando-o aos modelos de representação de família propostos por Regina Zilberman, a saber, o crítico, o eufórico e o emancipatório. Os modelos indicados pela autora, inicialmente criados para análise de narrativas infantojuvenis, servem também para análise de textos do gênero dramático, conforme se registra no trabalho realizado.
O modelo, que mais se aproxima do texto de Nazareth é o emancipatório, mesmo que a família de Zezinho esteja fora do sistema caracterizado como burguês. Algumas ocorrências fazem chegar a essa classificação, as quais eu retomo brevemente e relaciono às características do modelo em questão.

Zezinho, o protagonista, em momentos decisivos de sua história, se coloca numa posição de autonomia, como quando decide voar para o outro lado do morro. Muitas são as vezes que ele conversa com sua mãe sobre sua partida, a mãe adia enquanto pode a saída do menino, expondo o poder da família e de sua palavra, mas, quando ele se sente pronto para partir, a família, “instância superior e dominadora”, para usar as palavras de Zilberman (2003), não o impede. Essa atitude autônoma também é percebida quando Zezinho descobre-se artista e resolve voltar à sua terra natal e modificar o olhar de Sinhana: voltar para casa com tal intuito é desejo seu que se realiza, sinal de autonomia.

Outro elemento que filia “O menino detrás das nuvens” ao modelo emancipatório é o fato de Zezinho, como se quer no modelo, demonstrar, em seu retorno, crescimento e aprendizagem da realidade externa à família e não um reconhecimento da superioridade desse lugar de origem. Como já expressado anteriormente, Zezinho se descobre artista longe da família. Tal emancipação jamais aconteceria se ele não procurasse, longe da estrutura familiar, viver sua trajetória. Sua ascensão de menino confuso e tristonho a artista consciente só acontece porque ele vivencia uma realidade externa à família. A emancipação de Zezinho ocorre uma vez que o personagem cria instrumentos de uma vida autônoma, independente, decorrente, antes de tudo, de suas conquistas interiores, tal como salienta Zilberman (2003), que deve ocorrer no modelo em questão.

Também percebe-se, no início do texto, que o protagonista apresenta dificuldades a serem superadas que transcendem a sua faixa etária e se inscrevem no âmbito das questões humanas. As buscas de Zezinho não são desejos que somente interessam a um pré-adolescente, como é o caso do protagonista, no início da ação dramática: são buscas universais, que se localizam numa esfera mais ampla, e por isso tornam o texto interessante para leitores de todas as idades.

“O menino detrás das nuvens” está a provocar o entendimento do leitor frente às classificações propostas por Zilberman (2003), pois nele encontra-se uma ocorrência que não pode passar despercebida e que não está prevista no modelo emancipatório, muito menos nos demais modelos: o fato de Zezinho, depois de se descobrir artista, capaz de olhar o mundo com olhos diferentes, voltar para casa e modificar (mesmo que em proporções menores que a sua mudança) o olhar de sua mãe. Este recurso que Nazareth usou dá credibilidade ao jovem protagonista e o coloca num patamar exemplar de personagem emancipatório, a quem não basta ter passado por uma transformação interna e verdadeira; é necessário dividir sua experiência com Sinhana.

Zilberman (2003), no modelo emancipatório, prevê que os personagens mirins não se sujeitem ao mundo dos adultos, criando com eles laços de dependência e subordinação. No final da trajetória de Zezinho, tem-se quase que uma inversão dessa proposição: é o jovem protagonista que impõe seus valores, seu modo de ver o mundo. Assim, a história encerra-se com o protagonista reconstruindo a sua pequena família e partindo para outras experiências, pois outras plateias precisam ser animadas. Ele é um palhaço e o sabe: outros olhares precisam ser modificados.

Por essas questões, indica-se vivamente “O menino detrás das nuvens”, de Carlos Augusto Nazareth. Os leitores a partir de dez anos já podem conhecer a trajetória de Zezinho e se aventurar com ele, nas páginas da nova edição da Habilis Press Editora ou, com muita sorte, num teatro próximo da sua casa.

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